
Apesar de ainda ser pouco conhecida pelo público e muitas vezes confundida com obesidade ou linfedema, o lipedema é uma condição médica crônica, progressiva e debilitante que afeta predominantemente mulheres. Trata-se de um acúmulo anormal de gordura no tecido subcutâneo, especialmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços, que não melhora com dietas ou exercícios. Essa gordura não é a mesma relacionada ao ganho de peso comum: ela é dolorosa, inflamada, resistente à mobilização e tende a evoluir com o tempo, gerando impacto funcional, estético e psicológico. Em sua forma mais avançada, o lipedema compromete a mobilidade, a autoestima e a qualidade de vida de quem convive com ele.
O quadro clínico do lipedema envolve aumento desproporcional do volume dos membros inferiores (poupando os pés), dor ao toque, sensação de peso nas pernas, tendência a hematomas espontâneos e histórico de piora em momentos de variações hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa. A história natural da doença mostra que, sem diagnóstico e tratamento adequados, o lipedema pode evoluir para quadros mais graves e deformantes, podendo inclusive levar ao chamado lipolinfedema – uma sobrecarga do sistema linfático, com edema crônico e risco de infecções de repetição.
A etiologia do lipedema permanece em investigação, mas há forte evidência de origem multifatorial. A predisposição genética é marcante: mais da metade das pacientes relata outros casos na família. Os fatores hormonais também são determinantes, o que ajuda a explicar por que a doença raramente ocorre em homens. Outro ponto relevante é a relação com distúrbios micro circulatórios e inflamatórios locais, que perpetuam a dor e a disfunção tecidual.
O diagnóstico é essencialmente clínico e deve ser feito preferencialmente por médicos cirurgiões vasculares capacitados. A exclusão de outras condições – como obesidade primária, linfedema e insuficiência venosa crônica – é parte do processo diagnóstico. Exames de imagem, como o ultrassom e a linfocintilografia, podem auxiliar em casos duvidosos, mas não substituem a avaliação física detalhada e a anamnese dirigida.
Em 2024, a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) publicou o 1º Consenso Brasileiro de Lipedema, um marco histórico para o reconhecimento da doença no país. O documento estabelece critérios diagnósticos padronizados e propõe um modelo de classificação em estágios e tipos anatômicos, visando facilitar o planejamento terapêutico. De acordo com esse consenso, o tratamento do lipedema deve ser individualizado, multidisciplinar e baseado em três pilares principais: controle clínico, suporte físico-terapêutico e, em casos indicados, intervenção cirúrgica.
O manejo clínico inclui a orientação alimentar com foco anti-inflamatório, a prática regular de atividade física de baixo impacto e técnicas fisioterapêuticas específicas, como a drenagem linfática manual adaptada. O uso de terapia compressiva (meias ou bandagens) pode auxiliar no alívio dos sintomas, embora nem todas as pacientes tolerem bem esse recurso.
Entretanto, nos casos em que o lipedema evolui com dor incapacitante, deformidade ou falha do tratamento conservador, o consenso brasileiro recomenda a abordagem cirúrgica. O procedimento mais indicado é a lipoaspiração preservadora de linfáticos, realizada em ambiente hospitalar por equipe experiente. O Consenso SBACV destaca, porém, que a cirurgia não deve ser encarada como solução estética, e sim como uma ferramenta funcional e terapêutica em um plano de cuidado contínuo.
A conscientização sobre o lipedema é uma urgência de saúde pública. Reconhecer que se trata de uma condição médica real, com critérios diagnósticos claros e tratamentos baseados em evidências, é o primeiro passo para garantir dignidade, acolhimento e cuidado a milhões de brasileiras que ainda sofrem em silêncio. O avanço promovido pelo consenso brasileiro abre caminhos para políticas públicas, capacitação profissional e inclusão da doença nos protocolos dos planos de saúde. Mais do que combater o acúmulo de gordura, o desafio é romper com o acúmulo de invisibilidade que cercou o lipedema por décadas.
Jeferson Aita | CRM 23730
Cirurgião Cardiovascular
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