Entrevistas

HIV AINDA EXISTE

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Doença crônica, hoje com baixo risco de mortalidade, mas ainda sem cura. Confira a entrevista com o infectologista Thiego Cavalheiro sobre HIV e Aids, formas de transmissão, diagnóstico e tratamento.

Adolescentes tem contraído HIV?

É muito triste vivenciar o aumento de diagnósticos de HIV em adolescentes. Acredito que trabalhar com educação sexual através de um diálogo franco deve ser primeiramente um atributo familiar. Seja qual orientação que houver, do grau social, do nível de instrução, a atividade sexual deve ser debatida de forma natural especialmente no que se refere a riscos e consequências relacionados às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

 Os jovens tem iniciado cada vez mais precocemente as atividades sexuais. E as fontes de informações não são mais a conversa com os pais ou com o profissional da saúde, mas sim as redes sociais e os hábitos da “modinha”. Eu oriento fortemente que os adolescentes percam o medo de conversar e procurem a orientação correta, porque existem diversas situações na internet onde a orientação é equivocada, podendo ser criado uma verdade absoluta falsa.

Quais as formas de transmissão?

 Basicamente são três formas: a atividade sexual, o contato sanguíneo e o aleitamento materno. Disparadamente a maioria dos novos casos estão relacionados à atividade sexual sem o uso preservativos. Dentre as modalidades, o sexo anal é o de maior risco porque pode ocorrer micro sangramentos, aumentando a chance da transmissão do HIV. O sexo vaginal também tem risco, especialmente para o sexo feminino porque a superfície de contato da mucosa da vagina é maior do que o da glande do pênis. O sexo oral em uma proporção menor, mas eu chamo a atenção para os cuidados com outras DSTs, especialmente a sífilis, doença que tem apresentando um número expressivo de novos casos também. Precisamos evoluir muito nesse assunto e as pessoas precisam reconhecer que é uma prática que precisa ser feita de maneira responsável.

 O tratamento é realizado pelo SUS?

Todo o tratamento de HIV é disponibilizado pela rede de saúde. O tratamento é composto com o uso de medicamentos antirretrovirais que bloqueiam a entrada do vírus na nossa célula de defesa chamada linfócito CD4. Uma vez começado a medicação, o vírus não entrando na célula, ele morre. O tratamento inicial hoje é composto principalmente por dois comprimidos com baixas taxas de efeitos colaterais.

 Qual o período de transmissão?

A transmissão pode ocorrer em qualquer momento que houver contato desprotegido de uma pessoa portadora do vírus sem o devido tratamento, através das formas acima citadas. Tem dois momentos mais críticos, o primeiro logo após a aquisição da doença, quando se tem uma carga viral muito alta e ocorre uma batalha em que os linfócitos CD4 reconhecem o vírus pela primeira vez, momento que chamamos de síndrome retroviral aguda. Se a doença não for diagnosticada e tratada precocemente, o vírus continua atingindo e matando os linfócitos CD4, aumentando ainda mais a quantidade de HIV na corrente sanguíneas e em líquidos sexuais potencialmente capazes de serem transmitidos. Logo pacientes com HIV em estágios avançados têm maior capacidade de transmissão.

 Como é feito o diagnóstico?

Aproximadamente 80% dos pacientes que adquirem HIV não apresentam nenhum sinal e sintoma. O demais 20% podem apresentar a síndrome retroviral aguda sintomática que é expressa de um conjunto de manifestações próximas de um “gripão”, composta de febre, dor de garganta, dor de cabeça, dor no corpo, alguns pacientes podem ter um vermelhidão na pele. Os sintomas desaparecem, a doença se não diagnosticada e tratada evolui em 2 a 8 anos para estágios críticos de imunossupressão que chamamos de AIDS. Tem que ser realizado o exame para se estabelecer o diagnóstico. Em torno de 15 a 30 dias depois da infecção, os anticorpos contra o vírus já podem ser detectados através do teste sorológicos. Existem testes rápidos disponibilizados na rede de saúde pública e em laboratórios privados, que têm resultados em minutos. Outros testes que são complementares e confirmatórios mais específicos que têm resultados em 24 a 48 horas, sendo então utilizados para acompanhamento futuros dos pacientes.

 Quais os métodos de prevenção?

 Falamos muito sobre prevenção combinada. O preservativo deve fazer parte do ato sexual. O preservativo não é para o outro indivíduo, mas para sua proteção individual. O diagnóstico e tratamento precoce também é fundamental porque conseguimos reduzir a carga viral para níveis indetectáveis a ponto de não ser capaz de ser transmitido. Logo, diagnóstico feito, tratamento concretizado e carga viral suprimida igual a intransmissibilidade.

 Além disso, existem medicamentos pré exposição (Prep) que se constitui do uso de antiretroviral para indivíduos não portadores de HIV mas com alto risco de aquisição. Trata-se de um assunto que deve ser muito bem avaliado, mas acima de tudo temos que evoluir muito como sociedade para fazermos o uso correto desta prática, pois senão podemos descuidar do uso de preservativos e então aumentarmos o risco de adquirir outras DSTs além do HIV. Também no caso de uma situação de vulnerabilidade ou exposição por ato criminoso, é importante que a pessoa procure atendimento porque é possível tomar uma medicação pós exposição (PEP). O benefício maior é quando usado mais precocemente, estendendo-se até 72hs da exposição. É necessário que se realize uma avaliação cuidadosa para que seja definido uma estratégia prevenção não somente para HIV, mas como para outras DSTs. Existe um protocolo direcionado para este atendimento. A prevenção em saúde é um ato inteligente e elementar para vivermos com qualidade.

 

 

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