Mundo Afora

Mundo Afora: Varsóvia – Polônia

Lisiane Larecki e Wociech Pedro Larecki
Lisiane Larecki e Wociech Pedro Larecki
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Lisiane Larecki, publicitária e Wociech Pedro Larecki, coordenador de contratos contam um pouco sobre a sua história e sobre a cidade que foi a maior prova de amor do casal. Varsóvia entrou na minha vida graças ao meu marido, que é polonês e viveu até os 26 anos na capital da Polônia. Nos conhecemos há 15 anos, quando o Wojtek, apelido de Wojciech, veio para o Brasil, cursar parte do seu mestrado em Santa Maria, no extinto Mestrado em Integração Latino Americana da UFSM.

Namoramos por um ano, ele retornou a Varsóvia para finalizar o mestrado e veio de forma definitiva para o Brasil em 2009, inicialmente para viver em São Paulo. Após muita ponte aérea, decidimos nos casar naquele ano. Como os projetos que ele desenvolve são ao redor do mundo, morar aqui ou em uma outra cidade não faria diferença. Então, optamos por ter qualidade de vida, afirma Lisiane.

Amo o meu país, mas Varsóvia é a maior prova de amor do Wojtek por mim. Porque abandonar a vida em uma cidade linda, organizada, segura, que mescla história e modernidade em um equilíbrio perfeito, com toda a certeza não deve ter sido uma escolha fácil. E todas às vezes que visitei a cidade só fiquei mais e mais impressionada com o seu rápido crescimento. Mas como uma nerd apaixonada por história, foi na cidade velha, museus e parques onde gastei todo o tempo em que não estávamos matando as saudades da família.

CICATRIZES ABERTAS

A cidade foi basicamente dizimada durante a segunda guerra mundial. Cerca de 90% das edificações foram destruídas, praticamente apagando aquela que antes era considerada uma das cidades mais belas da Europa. Por isso, visitar o Museu do Levante de Varsóvia é quase que uma obrigação. O Levante da Cidade aconteceu em 1944, quando os moradores resistentes de Varsóvia se levantaram em um conflito armado que durou mais de 60 dias, e que tinha como objetivo libertar a cidade do controle dos nazistas. Eles foram sumariamente derrotados e após a queda dos insurgentes, Hitler ordenou que os soldados colocassem por terra o que havia restado da cidade.

Museu do Levante de Varsóvia
Museu do Levante de Varsóvia

Chorei durante quase toda a visita. Não vivemos em nosso país um confronto bélico dessas proporções, e ver ali expostos os objetos, cartas, fotos, brinquedos, pequenos recortes de vida de tantas pessoas que padeceram durante o conflito, realmente me abalou profundamente. Uma das áreas que mais me comoveu foi a sala destinada à memória das crianças que estiveram no meio do combate – meninos e meninas que atuavam na sua maioria como mensageiros, e que perderam suas vidas enquanto lutavam por liberdade. O museu mescla itens históricos, recursos cenográficos e tecnologia, criando uma narrativa profundamente imersiva durante sua visita.

Stare miasto (cidade velha)
Stare miasto (cidade velha)

No entanto, mesmo após a segunda guerra, e caindo sob o domínio soviético – período considerado sombrio pela maioria dos que viveram durante o regime comunista no país – a cidade literalmente se reconstruiu das cinzas. A cidade foi reerguida pedra por pedra, entregando o esplendor histórico que garantiu que a stare miasto, a Cidade Velha, fosse tombada pela Unesco e considerada patrimônio mundial na década de 80. Nesse ponto, o que mais me chamou a atenção, além da força deste povo em se reerguer, foi a sutileza com que as cicatrizes foram deixadas expostas: em diversas paredes podemos encontrar marcas de tiros disparados há mais de 80 anos. Uma forma de honrar o passado e deixar o alerta para que a história não se repita.

Palácio real
Palácio real

Mas Varsóvia vai muito além de segunda guerra e, se voltarmos ainda mais no tempo, podemos nos encantar no museu localizado no Palácio Real. Lá se encontra a primeira constituição da Europa, escrita em 3 de maio de 1791. Fiquei horas vagando pelos corredores, encantada com o trabalho de restauração empregado. Neste museu encontram-se as obras do pintor veneziano Bernardo Bellotto “Canaletto”, que foram de suma importância para o trabalho de reconstrução, devido ao alto grau de detalhamento de suas pinturas.

A BELEZA A CÉU ABERTO

Barbakan
Barbakan

Ande, ande, ande. Não há conselho melhor quando se trata de conhecer e se encantar com a cidade de Varsóvia. O Barbakan, fortificação que separa a stare miasto (cidade velha) da nowe miasto (cidade nova) oferecia – antes da pandemia – feiras ao céu aberto e uma comunhão entre passado e presente em cada tijolo de sua murada. O Caminho Real, que liga a praça real a parte sul da cidade, é uma atração à parte. Ali, além de cafés, restaurantes e belas igrejas, também está o campus da Universidade de Varsóvia (local onde o Wojtek estudou), e também o Palácio Presidencial.

Parque Łazienki
Parque Łazienki

A mais ou menos 4 km dali um outro local arrebata o coração de qualquer turista: o Parque Łazienki. Definitivamente o meu local favorito. Com um anfiteatro clássico situado a beira de um lago, e um lindo palácio sobre as águas, ou melhor, sobre uma pequena ilha, o local parece um pedaço de sonho: o sol dourado brilhando nas águas, as estátuas como que testemunhas congeladas no tempo, a imponência das construções que se erguem no meio da vegetação.

E fica aqui uma dica: se alguém mais ama música clássica como eu, vale muito a pena pegar um carro e ir até Żelazowa Wola, a poucos quilômetros de Varsóvia, e conhecer a casa onde este grande pianista nasceu. O local é lindo e o passeio pelos jardins é uma experiência a parte.

Estátua de Copérnico, em frente a Academia Polonesa de Ciências
Estátua de Copérnico, em frente a Academia Polonesa de Ciências

Em tempo: prestigiem a estátua de Copérnico, em frente a Academia Polonesa de Ciências. Este astrônomo e matemático polonês foi responsável pela teoria heliocêntrica, considerado o ponto de partida de todos os estudos modernos da astronomia. Em tempos de surtos isolados de terraplanismo, toda valorização ao avanço científico precisa ser enaltecida. Além disso, no local existe uma representação do sistema solar incrustrado na calçada, que pode render fotos bem hilárias, afinal, quem não gostaria de pôr um pé na lua?

UMA CULTURA RICA

Acredito que por ter uma história de resistência e renascimento tão emblemática, o povo polonês tem um forte sentimento de patriotismo, além de uma profunda valorização das mulheres. Afinal, foram elas as responsáveis por manter, no seio das famílias polonesas, o senso de identidade e de nação, mesmo nos tempos sombrios da União Soviética.

E este é um ponto que observei fortemente entre todas as pessoas que eu convivi por lá: trata-se de um período do qual os poloneses não têm nenhuma saudade. Tanto que ouvi em algum lugar uma frase que me marcou muito: na Polônia, ser católico era um ato político. Pois era um contraponto ao luteranismo dos invasores alemães da segunda guerra e se opunha ao regime comunista da União Soviética.

Lisiane em Łazienki
Lisiane em Łazienki

Verdade ou mito, o fato é que mais de 80% da população polonesa se declara católica – e praticante. Em todas as vezes em que eu fui à missa as igrejas estavam lotadas. Em um Natal que passamos por lá, perdi a conta de quantas igrejas visitei, além de receber a visita do padre na casa dos meus sogros para a ceia no dia 26.

A família do meu marido é muito tradicional nesse sentido, com direito a imagem do Papa Karol Wojtyła (João Paulo II) na sala. Então seguimos diversas tradições, como exemplo, os 12 pratos servidos antes da meia noite, não comer carne no dia 24 (minha cunhada e eu somos vegetarianas e isso facilita muito a vida da minha sogra) e ir assistir a missa do Galo – não na TV, mas na igreja, após a meia-noite e em temperaturas como -17°C, meu recorde em solo polaco. Porém, não se engane: no verão, as temperaturas superam os 30°C e a vegetação é pujante.

O país em si é muito moderno, mas não foi foco de imigração como outros países da União Europeia. Lembro do contraste absurdo que senti em relação a Amsterdã, uma cidade extremamente cosmopolita com uma população bem diversa.

Lisiane e Wojtek em Sopot
Lisiane e Wojtek em Sopot

No entanto, não senti, de forma alguma, nenhum tipo de discriminação ou racismo em minhas passagens por lá, tanto que em minha última visita, em 2019, fui sozinha visitar meus sogros, pois meu marido estava envolvido em uma obra na Hungria. Olhares de curiosidade com toda a certeza surgem, principalmente quando viajávamos para o interior, mas a recepção calorosa, amor e cuidado que eu recebi foram muito maiores.

E quando se trata de receber bem, os poloneses não economizam em duas coisas: comida e bebida, afinal as vodcas polonesas são famosas em todo mundo. A culinária é incrível, muito bem temperada, com vários pratos à base de batata, por exemplo, o pierogi. Outra comida fantástica é o Żurek, uma sopa fermentada, levemente azeda, que pode ser servida no pão. E o meu queridinho é o piernik, um popular bolo de gengibre e mel maravilhoso, cuja a receita da família eu trouxe comigo para o Brasil.

ENFRENTAMENTO DA PANDEMIA

Palácio Wilanów
Palácio Wilanów

Os números realmente são preocupantes, com o país tendo decretado medidas muito rígidas de controle, com fechamento de escolas, shoppings e diversos locais públicos. Somente no dia 25 de março foram mais de 34 mil novos casos registrados, em um país com uma população cinco vezes menor que a do Brasil, que no mesmo dia registrou 97 mil. Claro que o fator do clima (o país está saindo do inverno para a primavera) também agrava a situação.

A vacinação está ocorrendo em ritmo acelerado e o histórico de sobrevivência, resiliência e superação deste povo contribuem para que tenhamos esperança de que, em breve, as dificuldades e tristezas impostas por esta pandemia terão sido ultrapassadas e possamos visitar a família e amigos que vivem lá, finaliza Lisiane.

DICAS EXTRAS

  • Visitem o palácio Palácio Wilanów e depois me agradeçam pelas fotos incríveis nos jardins.

    Vista do Palácio da Cultura e Ciência
    Vista do Palácio da Cultura e Ciência
  • Apaixonados por futebol: o estádio Nacional é sensacional. E em algumas épocas no inverno, o gramado se transforma em uma pista de patinação no gelo.
  • Subam na torre do Palácio da Cultura e Ciência. O prédio tem 237 metros de altura, 42 andares é o mais alto da cidade. A vista de lá é espetacular.
  • Embora pertença a União Europeia a Polônia não adotou o euro. A moeda no país é o złoty. Viajei levando euros, e pasmem: reais. Foi super fácil trocar nossa moeda por lá, até mesmo em casas de câmbio de shoppings.

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