Educação

Alfabetização em Casa

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O Projeto “Alfabetização em Casa” surgiu em razão das implicações da pandemia sob o processo de alfabetização com crianças entre 6 e 8 anos de idade. Moradores do Condomínio onde resido desde maio/2020, passaram a pedir assessoria para os próprios filhos com dificuldades nas aulas remotas.

O desafio maior como pedagoga era desenvolver atividades que qualificassem o processo alfabetizatório das crianças sem que essa interação fosse igualmente online como estava acontecendo e muito mais do que isso: não fosse uma aula particular ou uma aula de reforço escolar ou ainda um acompanhamento ao desenvolvido no meio remoto pela escola.

A autonomia, quando desenvolvida, pode ser capaz de resolver os problemas de lacunas de aprendizagem trazendo para o nível de não-mais-dificuldade aqueles temas que até então se constituíam no próprio foco de entrave de aprendizagem. Foi então que propus aulas individuais em minha casa, numa periodicidade de três vezes por semana, com duração de 1 hora. Optei por aproveitar um pouco mais do máximo possível da capacidade de atenção, concentração e interesse.

Aprender a ler e escrever exige uma construção interna imensamente complexa e que transcende exercícios trazidos em livros didáticos (que são partes complementares importantes no processo de apropriação da linguagem escrita), no entanto, insuficientes, superficiais e muitas vezes repetitivos.

O desafio era o pensar em interações que tendo esses conhecimentos específicos, qualificassem o processo de alfabetização com cada criança, trabalhando individualmente e consequentemente não dispondo do compartilhamento do grupo de outras crianças, que instigam entre si a curiosidade, as redescobertas, o movimento parametrizado no modo de ser do outro, a alegria que provoca o riso imprevisível no mesmo tempo que este protagonismo passa a produzir escritas espontâneas, reflexivas, capazes de promover em si, avanços na apropriação de signos de escrita (letras) e o reconhecimento desses na leitura (consciência fonológica). Tudo isso ao tempo de cada um, dispondo de nossa mínima uma hora de trabalho na semana reduzida de três encontros.

A minha surpresa foi constatar trajetórias de apropriação da linguagem escrita tão complexas serem desenvolvidas em tempo significativamente rápido, considerando que numa sala de aula na escola ,para conseguirmos realizar um trabalho com a qualidade evidenciada, são necessários pelo menos 200 dias letivos e no mínimo 800 horas de aulas e ainda assim, muitas vezes, esse processo possa não se dar tão denso como o observado no projeto “Alfabetização em Casa”.

Estou muito feliz com os resultados alcançados numa média que não ultrapassou cinco meses de interações, sobretudo, muito feliz e realizada por presenciar processos que no ritmo de cada criança, apresentam evidências de avanços além do esperado ao final de um primeiro ano do Ensino Fundamental.

A pandemia me abriu a possibilidade de empreender em minha área de estudo e pesquisa. Pensei que minha atuação profissional já estava definida a esse tempo de experiência de vida, quando há quinze anos me dedico a ensinar a quem ensina o ler e escrever bem como também trabalhar com professores que formam professores. Surpreender a si mesmo precisa ser nosso maior desafio. Estou feliz com o que tenho encontrado e me surpreendido.

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Professora Rejane Cavalheiro
Especialista em Pré-escola, Mestre,
Doutora e Pós-doutora em Educação

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