Artigo de opinião

A resiliência dos profissionais de saúde dura até quando?

A resiliência dos profissionais de saúde dura até quando?
Valdeci Oliveira
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Nesta terrível crise sanitária que assola o Rio Grande, o Brasil e o mundo há aproximadamente um ano, muito se fala a respeito do drama dos pacientes, da necessidade industrial de abertura de leitos, no fecha e abre das atividades econômicas e na eficácia ou não de medicamentos que não têm o aval da ciência. Sem dúvida, são temas pertinentes e que merecem atenção. Todavia, curiosamente, a situação de uma das “ferramentas” mais relevantes nesse duelo travado contra o coronavírus fica, muitas vezes, segregado do debate público estadual e nacional.  É verdade que volta e meia, alguém ou alguma instituição lembra de promover alguns “minutos de aplausos” dedicados aos profissionais de saúde, homens e mulheres que literalmente colocam a sua vida em risco para protegerem a saúde do conjunto da população. Os aplausos, de fato, são contagiantes, saudáveis (ainda mais em tempos tão desumanos) e legítimos, mas os seus efeitos terminam aí. Infelizmente, essas homenagens não têm impacto para aliviar a estafa dos médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem ou para recompor o efetivo das equipes – reduzido justamente porque muitos profissionais contraíram a Covid ou adoeceram pela sobrecarga de trabalho.

Dias atrás, eu tive uma pequena amostra do que está acontecendo de fato hoje nos hospitais do Rio Grande do Sul, cenário que certamente não difere dos demais estados brasileiros. Por minha proposição, a Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa promoveu uma reunião de emergência para discutir a superlotação hospitalar registrada em praticamente todas as regiões gaúchas. Diversos gestores de hospitais, trabalhadores e representantes de sindicatos e federações da área da saúde marcaram presença lá e soltaram o verbo e as lágrimas. Confesso que o meu peito ficou apertado por horas após ouvir uma saraivada de depoimentos que misturavam desespero e impotência. Desespero por saberem que, a cada dia, diminui o estoque de medicamentos e insumos hospitalares, e aumenta o número de pacientes internados. Impotência por terem a compreensão que, num cenário assim, as mortes em série são uma forte tendência. Trago aqui uma fala, a do diretor do Grupo Divina Providência, Clovis Soares, que resume muito do que foi dito naquele dia: “Nós perdemos ontem uma paciente de 32 anos, que não precisaria morrer se tivéssemos a estrutura necessária. Os hospitais estão dobrando a sua capacidade, profissionais estão dobrando a sua jornada, mas não vão dar conta.” Outro gestor chegou a dizer na reunião que os hospitais precisavam urgentemente de acesso a medicamentos “para salvar ao menos alguns (pacientes).” O médico, mestre e doutor em saúde, Antônio De Negri, coordenador-geral da Rede Brasileira de Cooperação em Emergências (RBCE), “desenhou” a extensão da crise. “Nós passamos do ponto de colapso. Caminhamos para uma situação desastrosa”, afirmou ele.

Gostaria muito que a imensa parte da população do Rio Grande e do Brasil pudesse ter ouvido o que eu e meus colegas deputados e deputadas ouvimos durante mais de três horas. Ver profissionais e gestores de saúde, completamente emocionados, apelando por socorro diante de diversas autoridades, que justamente enxergam nelas uma espécie de escudo protetor ao caos, é angustiante. Duvido muito que alguém que seja confrontado de forma tão direta com essa realidade cometa a irresponsabilidade de não usar uma máscara facial ao sair de casa, de participar de aglomerações ou de ignorar ou desdenhar de algo tão sério como é a pandemia em questão.

Felizmente, pra não dizer que só falei de desgraças hoje, a reunião produziu resultados positivos em tempo recorde: cerca de 48 horas depois do encontro, os titulares da Assembleia Legislativa, governo do Estado, Tribunal de Contas, Defensoria Pública, Ministério Público e Tribunal de Justiça anunciaram uma ação conjunta e confirmaram o repasse de R$ 70 milhões para os hospitais gaúchos, iniciativa que será efetivada nos próximos dias e que certamente vai contribuir para poupar perdas humanas. Que o apoio a quem está na linha de frente seja contínuo, imediato e na mesma altura dos desafios que estão colocados para quem atua numa emergência, CTI ou unidade básica. Que a vigorosa resiliência dos profissionais de saúde, a qual congrega solidariedade, abnegação e devoção ao coletivo, continue firme – apesar do cansaço brutal – até o fim dessa crise. E que a nossa sociedade siga aplaudindo quem labuta pela vida, mas que também pratique a defesa e a valorização concreta dos trabalhadores e trabalhadoras que, todos os dias, protegem a saúde de quase 210 milhões de brasileiros e brasileiras.

Valdeci Oliveira, deputado estadual (PT-RS) e membro titular da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa.

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