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Aulas online: o novo paradigma instaurado em 2020

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Janice Vidal Bertoldo é pedagoga e Mestre em Educação, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, Professora da Especialização em Psicopedagogia e Especialização do Centro Clínico e de Estudos em Psicologia. Possui larga experiência clínica em avaliação e atendimento psicopedagógico; Orientação Profissional / Carreira; Alfabetização para pessoas com Transtornos do Neurodesenvolvimento – TEA, D.I, Dislexia, TDAH); Assessoria psicopedagógica à Instituições Escolares (Instituições de Ensino Básico e Superior) e não escolares (Espaços Sociais – Ongs).

Quais os maiores problemas de aprendizado?

Janice Vidal Bertoldo: Existem diferenças, principalmente entre apresentar uma Dificuldade de Aprendizagem e um Transtorno. O primeiro, diz respeito a sintomas passageiros, que com as devidas intervenções, sejam do próprio professor da classe, de um apoio pedagógico ou trabalho psicopedagógico conseguem sanar e resolver. O segundo temos resultados não resolutivos, mas que com as devidas intervenções de cunho clínico/terapêutico, amenizam os sintomas.

A prevalência da demanda que tenho atendido nestes últimos 5 anos de dificuldades de aprendizagem, muitas estão associadas a Transtornos do neurodesenvolvimento, posso citar: dificuldades (demora) em alfabetizar-se o que envolve os processos de decodificação, compreensão e interpretação (consciência fonológica), dificuldade em produção textual; lentidão no raciocínio lógico – aritmética; não ter-se o hábito e organização de estudo – não gostar de estudar, não saber se organizar – de forma geral; desinteresse pela escola; falta de concentração; muito interesse pelos eletrônicos, relegando outras atividades.

Quais os maiores desafios frente as aulas online?

Janice Vidal Bertoldo: Tem uma diversidade de fatores a serem destacados! Manter o foco atencional, por parte dos Estudantes. E os Professores, encontrar estratégias metodológicas, em um lugar em que não tem a presença física, e, portanto, uma convivência presencial, na qual a vantagem do ensino presencial, é justamente o ensinar e aprender com emoção, pois se tem presente a isso o ato de conviver, de estar com as pessoas. E o ensino através de uma ‘tela’, por mais boa vontade e técnicas pedagógicas, não passa emoção como no presencial.

Quanto menor a criança menos tempo de concentração.

E algum adulto que tenha disponibilidade de acompanhá-la para que dê conta do pedagógico da escola, por uma pessoa que não tem formação na área específica.

E quanto a supervisão de adultos, sejam estes os pais, os cuidadores, por exemplo, isso está posto para que seja incorporado pelos familiares, independente de faixa etária dos filhos. O que se deveria ter sempre, em função da maturidade emocional das crianças e adolescente, mas neste contexto atípico os adultos responsáveis por estes, estão sendo mais exigidos dessa atribuição, e muitos tendo que trabalhar em seus lares.

Os distratores em um ambiente da sua casa, que não é um ambiente de aprendizagem formal como o da Escola! O que se soma o homeoffice de muitos pais e ou cuidadores, então não se tem um ambiente ‘controlado’ de aprendizagem formal a didática professoral.

As crianças da Educação Infantil, é outro exemplo delicado, pois na escola presencial elas realmente aprendem conforme este estágio de desenvolvimento do ser humano necessita, ou seja, com o ato de aprender brincando, fazendo, e principalmente, movimentando-se!

O ato motor, para as crianças nessa fase de desenvolvimento, bem como o aprender a conviver, compartilhar seus brinquedos com seus pares; é fundamental para práticas pedagógicas posteriores da escola, como escrever, organização em um caderno, conseguir ficar sentada em sua cadeira por determinado tempo, nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

Crianças e adolescentes conseguem aprender de forma online?

Janice Vidal Bertoldo: Sim, conseguem aprender, porém é uma aprendizagem diferente da do presencial, em função do aspecto supracitado. Se a aprendizagem significativa, ocorre por meio, da emoção, dos vínculos positivos a serem estabelecidos, como fica esta característica tão relevante ao apreender? Sem dúvida há impactos relevantes em nossos processos de aprender! Este contexto acomodou muito os alunos, independente do nível acadêmico. O modelo remoto não pode se tornar presencial, ou seja, não podemos ser presenciais numa modalidade remota, são circunstâncias muito adversas, em função da modalidade de aprendizagem do ser humano.

Existem ferramentas tecnológicas que não substituem as ferramentas do presencial, como por exemplo, o ato de escrever e digitar, não se pode, é claro negar as novas tecnologias, mas a substituição, não pode acontecer porque são habilidades distintas que precisam ser estimuladas. As crianças, principalmente, estão escrevendo e lendo menos, o impacto disso é gigante em nosso repertório desenvolvimental.

E crianças com déficit de atenção?

Janice Vidal Bertoldo: Novamente recaímos na discussão dos tempos de ficar em frente a uma ‘tela’, com uma aula bem menos dinâmica, e, portanto, menos atrativa e envolvente. Isto vale para outros transtornos do neurodesenvolvimento, que requerem interação física, sensorial, enfim. Inclusive estudantes adultos, do Ensino Superior, o desgaste emocional e cognitivo será maior, ocasionando um cansaço, uma fadiga, e consequentemente o desinteresse por dada disciplina, conteúdo, dentre outras.

E como trabalhar com professores desmotivados? Como aconselhar?

Janice Vidal Bertoldo: Não podemos negar o clima que se instaurou de insegurança, incertezas, que gerou muito estresse, em todos os segmentos, famílias, corpo docente, a sociedade de forma geral. Os Professores trabalharam, e ainda estão trabalhando, para além de suas cargas horárias, de forma exaustiva, com o objetivo de dar o seu melhor, em prol de conseguirem atingir de forma pontual este novo processo de ensinar e aprender. E aí temos a fadiga, pois aulas que eram para ser numa modalidade remota, se tornarem modalidade EAD, em uma escola básica, portanto, 100%, como não se desmotivar, ao ver que apesar de muito esforço ainda existem críticas, as cobranças, por certos segmentos da sociedade?!

Afinal, somos seres humanos, seres de emoção, sentimentos, psiques, e partícipes do próprio ciclo, somatizando, também este processo adverso aos nossos cotidianos. O que tenho vivido e ou presenciado, é a busca de melhores respostas, a partir de discussões saudáveis, com especialistas da própria área da educação, assim como da área da saúde mental, e estes divulgando, oferecendo capacitações, cursos, para o quadro docente, e tentar dessa maneira, com formação, amenizar este quadro, tão caótico para todos os segmentos da sociedade.

Quais as sequelas deste ano ocioso? E também emocionais?

Janice Vidal Bertoldo: As consequências de um ano atípico, é que teremos lacunas pedagógicas e ou educacionais, sem dúvida, com uma certa extensão, porque são sequelas ao próximo ano, e também aos próximos, o que pode ser por 2, 3 anos. Inicialmente de um prejuízo emocional e na sequência o cognitivo, o que chamamos de maturidade cognitiva, e ainda a conteudista. Mas temos casos que se beneficiaram, como crianças, adolescente e adultos que tenham algum diagnóstico clínico mais severo, pois estão menos expostos aos aspectos estressores, e que até aprenderam e ou melhoram seu repertório de desenvolvimento em muitos aspectos. Em outras palavras, é relativo, porque depende do público que estamos nos referindo, são pessoas típicas e ou atípicas? É um aspecto a ser mais observado, sendo ainda muito prematuro de definir; de ainda muitas incertezas, só o tempo nos trará mais e melhores respostas ou talvez nos tornemos mais ávidos a questionarmos e refletirmos mais sobre nossos discursos e práticas.

Qual o futuro de nossa educação?
Pergunta muito complexa! Mas um aspecto é certo, muito do que estamos vivendo, de instrumentalização tecnológica, ‘apesar dos pesares’, veio para ficar. Muitas dessas ferramentas, facilitaram vários dilemas que envolvem o Planejamento Pedagógico, a Metodologia e Métodos, o Sistema Avaliativo, o suporte às famílias, dentre tantas outras questões da triangulação, escola, família e sociedade.

E as crianças de rede pública que não tem aula online? E nem computador em casa?

Janice Vidal Bertoldo: Antes do sistema se instaurar, as famílias recebiam e ou retiravam as atividades nas Instituições de Ensino, com seus plantões ou nas Secretarias de Educação, no caso de Cidades mais do interior e ou meio rural. Claro que ainda temos famílias, que não têm o acesso virtual, pelo fato de não ter um PC, um tablete, um notebook, um celular, a internet, mas nestes casos seguem recebendo e ou retirando o material impresso. O problema é ficar sem o acesso às explicações dos professores.

Porém, um dos problemas que se desencadeou foi o fato de que existe uma ‘política’ de que o aluno já tem ciência de que todos serão aprovados, e isso gerou um descaso por parte do estudante, e ou até da própria família. Ou seja, já que vai passar de ano, para que eu me esforçar, ou investir em uma ferramenta, tentar buscar este conhecimento de alguma forma, porque os prejuízos desse tipo de comportamento, será a longo prazo.

Infelizmente é uma realidade, e provavelmente, um dado relevante a ser considerado, a ser analisado para as adequações das matrizes curriculares, as exigências acadêmicas a partir do e dos próximos anos. Reflexão que serve também para a rede particular, afinal mesmo aqueles que tem acesso a todo este novo ‘modelo escolar’, também tem gerado preocupação nos familiares e Instituições de Ensino, pelo fato de termos uma situação de acomodação. Dado preocupante!

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